segunda-feira, 24 de março de 2008

Lembrar.

Enquanto o Youtube me nega
o prazer de postar uma música
do Bee Gees, trago à baila estas
palavras; lembrando-as, porque
elas não podem ser esquecidas:


“Quantas vezes fui um ditador?

Quantas vezes um inquisidor, um censor, um carcereiro?

Quantas vezes proibi, aos que mais queria, a liberdade e a palavra?

De quantas pessoas me senti dono?

Quantas condenei pelo delito de não serem eu?

Não é a propriedade privada das pessoas mais repugnante que a propriedade das coisas?

A quanta gente usei, eu, que me acreditava tão à margem da sociedade de consumo?

Não desejei ou celebrei, secretamente, a derrota dos outros, eu que em voz alta me cagava no valor do êxito?

Quem não reproduz, dentro de si, o mundo que o gera?

Quem está a salvo de confundir seu irmão com um rival, e a mulher que ama com a própria sombra?”



Eduardo Galeano, Dias e noites de amor e de guerra, páginas 202 e 203.

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