quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Porque escrevo (PARTE IV)
Depois que postei o texto de ontem (PARTE III), me lembrei de um trecho da música "Quase sem querer" do Legião Urbana, que diz assim "Como anjo caído, fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira... Mas não sou mais tão criança, a ponto de saber tudo". Isso porque eu disse que precisava dizer as verdades pra mim mesmo, pois algumas verdades a gente não quer dizer e reconhecê-las, mas "mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira".
Mas, continuando o nosso périplo (caminhada), apesar de eu não saber como retomar o raciocínio, por um tempo eu me cansei de escrever; achei que talvez fosse pura vaidade: como se, ao escrever, eu quisesse ensinar algo aos demais.
Além disso, achei que escrevia para os outros e era inútil tal ofício, pois o que escrevo nem sempre é apreendido por quem lê; não, pelo menos, da forma que eu escrevi (ou seja, nem sempre a pessoa capta o que eu quero passar).
Mas, com o tempo, eu vi que não escrevia para "ensinar" (ou dar uma lição de moral) os outros; escrevia pra mim mesmo. Com meu ato de escrever, eu não tentava salvar ninguém; tentava, sim, me salvar, e, se eu conseguisse esse objetivo, já me dava por satisfeito.
Pano rápido: mas, ao me salvar, será que eu não acabo salvando os que me cercam?! Talvez sim...
Quanto ao segundo ponto, percebi que os meus textos eram como frutos prendidos a uma árvore; enquanto eles estavam comigo (não escritos, ou escritos, mas não divulgados), a mim me pertenciam; a partir do momento em que eu os mostrava, já não competia a mim saber o que iriam fazer deles.
Se, ao colher-los (ou ao ler-los), as pessoas iriam comer, fazer um doce, um suco, ou lançar no lixo, isso fugia ao meu controle. Nem mesmo o sentido que as pessoas iriam dar a eles cabia mais a mim.
Abre parêntesis: refletindo sobre o ato de escrever, consegui desvendar duas coisas que, para mim, eram interrogações.
A primeira é que, na minha adolescência, havia um grupo de pichadores na cidade em que eu morava (e eu desconfio que tinha uns colegas meus que participavam kkkkk) e eu me indagava o que é que levava um cristão a fazer aquilo.
A outra coisa que eu observei foi com relação aos surdos-mudos; eu tenho um primo surdo-mudo e ele ficava fulo da vida quando a gente não entendia ele.
Consegui descobrir que, o que levava os pichadores a pichar e o que deixava meu primo muito macho era a mesma razão: a necessidade de por pra fora aquilo que estava no interior deles.
Acho que os pichadores picham porque, em casa, não são escutados; já meu primo ficava muito irritado porque queria exprimir algo e a gente não entendia (ele ficava vermelho; quer dizer, roxo... roxinho hehe).
Fecha parêntesis.
Até o próximo capítulo ;)
:*
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Um comentário:
Olá, Pequeno Príncipe...
"__Quem és tu?perguntou o principezinho.Tu és bem bonita...
__Sou uma raposa,disse a raposa.
__Vem brincar comigo,propôs o principezinho.Estou tão triste...
__Eu não posso brincar contigo,disse a raposa.Não me cativastes ainda.
__Ah!desculpa,disse o principezinho.Após uma reflexão,acrescentou:
__Que quer dizer "cativar"?
__Tu não és daqui,disse a raposa.Que procuras?
__Procuro os homens,disse o principezinho.Que quer dizer "cativar"?
(...)
__É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.Significa "criar laços...".
__Criar laços?
__Exatamente, disse a raposa.Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual
a cem mil outros garotos.E eu não tenho necessidade de ti.E tu não tens necessidade de mim.
Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas.
Mas se tu me cativas,nós teremos necessidade um do outro.Serás para mim único no mundo.
E eu serei para ti única no mundo...
__Minha vida é monótona.Eu caço galinhas e os homens me caçam.Todas as galinhas se parecem
e todos os homens se parecem também.E por isso me aborreço um pouco.Mas se tu me cativas,
minha vida será como que cheia de sol.Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros.
Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.O teu me chamará para fora da toca,como se fosse música.
E depois,olha!Vês lá longe,os campos de trigo?Eu não como pão.O trigo para mim é inútil.Os campos de
trigo não me lembram coisa alguma.E isso é triste!Mas tu tens cabelos cor de ouro.Então será maravilhoso
quando me tiveres cativado.O trigo,que é dourado,fará lembrar-me de ti.E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
__Por favor...cativa-me!disse ela.
__Bem quisera,disse o principezinho,mas eu não tenho muito tempo.Tenho amigos a descobrir e muitas coisas
a conhecer.
__A gente só conhece bem as coisas que cativou,disse a raposa.Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa
alguma.Compram tudo prontinho nas lojas.Mas como não existem lojas de amigos,os homens não têm mais
amigos.Se tu queres um amigo,cativa-me!
__Que é preciso fazer? perguntou o principezinho."
(O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupèry)
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